quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Um céu que faria Bergman estremecer. Em uma cidade que mais parece uma casa assombrada. Habitada por espíritos bons, mals, indiferentes. Caminho até a última casa, onde tudo vira verde-amarelado, refletindo o laranja do pôr-do-sol-pós-chuva. Onde os barulhos desaparecem e só se ouve o garoto tocando wonderwall sem parar. And all the roads we have to walk are winding. And all the lights that lead us there are blinding.
A estrada convida, com aquela sedução, e solidão, que só elas possuem. A vontade de seguir cada uma das curvas sempre teve força alarmante. Mas, agora, quando a mudança finalmente é possível, existe um contrapeso. Lá atrás, já tem o cheiro das suas roupas no meu quarto, os fios do seu cabelo na minha cama, as suas músicas distantes de mim por apenas um play e eu tão presa nas suas mãos que não passo dessa linha.



I don't believe that anybody
Feels the way I do about you now





quarta-feira, 16 de dezembro de 2009


Embaixo da árvore da qual nunca saberíamos o nome, perguntou-me se eu preferia ir ou ficar. Não sabia, a cabeça presa em outro lugar, lembrava de outras histórias. Acredito que deveria ter pedido de volta os livros, músicas e filmes. Não para poder tocar, mas para evitar o que acontecia agora. Quando se apoderam do que é meu para conquistar alguém que eu não conheco. Alguém que eu não sei se merece ganhar essa parcela de mim. Eram minhas fábulas, minha poesia urbana, meus sons resmungados. Até aquela risada tinha saído de mim.
Deitada na grama, enjoando do vai e vem das follhas, sentia as mãos tão presas uma na outra. A unha dela que passava insistentemente de um lado para outro no dedo menor. Pensava em como tinha acabado naquilo. Algo que tinha todas as chances de dar errado, mudou potencialmente duas consciências, acostumadas a arriscar tudo o que tinham por quaisquer distrações.

Te fiz um desenho. Eu contei. Algo que não cabia naquela cena reviveu e foi apagado pela música que voltou a tocar. Quanto tempo até eu pensar em pedir os novos livros de volta?
Por enquanto tudo caminha de forma que nos faz dormir sem preocupações.
Toma um sorvete comigo amanhã? No mesmo horário estarei de volta. Outras idéias me manterão alheia às conversas pouco profundas. Só até sentir de novo o seu toque e passarmos a discutir sobre o céu e o inferno. Só até eu ver surgir esse sorriso que te torna tão viciante.


Se você vai sair
O seu asfalto

Se você vai sair

Eu chovo
Sobre o seu cabelo pelo seu itinerário

Sou eu o seu paradeiro

Em uns versos que eu escrevo

Depois rasgo


segunda-feira, 14 de dezembro de 2009


O céu era pesado. Parecia querer ir para algum lugar, mas estava lá, todo amontoado. Nuvem sobre nuvem, tudo muito cinza. Era verão, ainda assim os tempos pareciam outros. Ligou o chuveiro e sentiu frio, muito frio. A água escorria pela pele inteira arrepiada.

Apagou todos os e-mail da caixa de entrada sem ao menos ver quem eram os remetentes. Queria se livrar do que não existia. Queria que tudo desaparecesse sem deixar lembranças, sem causar arrependimentos.

Assistia às cenas. Sozinha na sala escura. Os olhos úmidos. Não queria companhia. O café tinha um cheiro bom, na xícara nova, preta, que ganhara de alguém que parecia tão especial. Parecia.

Caminhava descalça na grama e o frio voltava.

Ouvia aquela banda, há tempos esquecida e lembrava coisas que havia lutado pra enterrar. Estavam enterradas, mas nem por isso deixaram de existir. Morrer é impossível, pensou. Imaginou pessoas.

Quis cantarolar, mas nada parecia combinar com o momento. Quis recitar e lembrou-se que odiava poesia. Deve ser realmente incapaz de sentir. Coisas boas ou ruins. O princípio é o mesmo.

Conversou. E na verdade eram apenas respostas. Vazias. Não era sobre aquilo que queria falar, mas falou.

Escreveu e nada era como deveria ser. Nada impressionava, nada modificava. De nada valia.

Sabia onde estavam as pílulas. Tomou uma, duas e acreditou que não valia a pena. Não foi em frente. Teve medo. Apenas voou. Longe, muito longe. Por um momento houve liberdade.

Dormiu. Não sonhou. Acordou e o quarto continuava igual. A diferença era a luz. Um sol bastante distraído apareceu e entrava envergonhado pela fresta da janela. Não conseguiu espantar aquele ar gelado.

As fotografias na parede mantiveram os olhos intactos. Uma toalha jogada perto da porta etreaberta. O rádio tocava a mesma voz. Repetidamente.




I am so dumb
Just beam me up
I've had it all forever
I've had enough

Remember, you promised me
I'm dying, I'm dying, please
I want to, I need to be
Under your skin


quinta-feira, 3 de dezembro de 2009




Tantas referências após tanto tempo matando qualquer possibilidade. Eu passo horas me perguntando: Será que um dia vai acabar?

segunda-feira, 30 de novembro de 2009


Gosto de pessoas que tenham histórias absurdas para contar. Gosto dos que sabem o que é pecado porque experimentaram e não porque leram no evangelho. A teoria enfraquece qualquer experiência, antecede nas expectativas os possíveis sentimentos e, assim, os torna plastificados, esperados. Só o absurdo causa impacto, só o impacto nos torna vivos.
Não me importa sua literatura, me importa que me coloque, de fato, na parede. Com as mãos, com palavras, com olhares, você decide. Gosto de provocações, gosto dos perigos, quando trazem realmente alguma satisfação. Jogos desnecessários me entediam, rápido, muito rápido.
Não gosto de quem pede por posições sexuais. Tem que te fazer querer estar lá sem que você perceba. Não gosto de respeito por obrigação. Tem que ouvir durante aquele café pela manhã e se manifestar. Gosto dos que criticam porque entendem do que falam não porque compraram uma opinião, não porque ganharam um conceito embalado.
Se me disser que tem um castelo... eu caso. Não pela riqueza ou pela estética, mas reativar meu romantismo abandonado parece interessante.


Pra gente inventar
A hora e o jeito de acordar ou dormir
De um dia após o outro dia
De como entrar ou sair
De como passear entre o visto e o imprevisto
Entre o que pode fazer bem
E o que pode fazer mal
Entre viver o que se pode
E a cada dia querer mais.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

e o mundo é perfeito


Após 12 horas de trabalho consegui pegar um ônibus para casa. Sozinha, em um banco duplo, tentava controlar meu cansaço, minha recente falta de paciência com o mundo. Estava ouvindo música de olhos fechados quando senti alguém sentar ao meu lado. Era uma mulher negra com o sorrido mais bonito que eu já vi. No colo uma criança e ao lado, em pé, estava o marido com outra criança também pequena. Levantei e ofereci meu lugar para ele e a garotinha que ele segurava sentarem.
Uma menina no banco em frente se ofereceu para segurar minha bolsa e eu recusei, sentindo o quanto ela me parecia leve. Eu prestava atenção no casal. Ele tratando ela tão bem, mesmo com as derrotas que pareciam estampadas no rosto dos dois. Segurando suas crianças como se isso fosse protegê-las de todo o mal. Eu acho que protege.
Uma senhora entrou alguns pontos depois. Equilibrava sacolas e guarda-chuva. Um garoto, alguns anos mais novo que eu, e de uma aparência bastante humilde levantou para que ela se sentasse. O motorista guiava com cautela, passando devagar por dentro das poças gigantes deixadas pela chuva da tarde e as pessoas relatavam os próprios problemas com bastante humor.
Comecei a pensar na burrice que era me incomodar com coisas tão pequenas. E em pouco tempo tudo pareceu tão calmo, tão simples, tão fácil de se levar. Essa humanidade que temos é o que ainda nos salva de nós mesmos. Atos pequenos, que nos são quase indiferentes e que podem mudar uma hora na vida de alguém.
Eu passei tanto tempo procurando alguém em quem colocar a culpa pelas minhas frustrações e, naquela meia hora, consegui consertar tudo dentro de mim mesma. Não eram os outros, eu estava quebrada.
É muito mais eficaz resistir quando a alma, o espírito e, principalmente, o coração estão em paz. É muito mais motivador lutar quando temos alguém para assegurar.
Caminhei devagar até em casa, sentindo que não queria o fim da noite. Sentindo saudades.

Eu acho que
tenho certeza daquilo que eu quero agora
daquilo que mando embora
daquilo que me demora
eu acho que tenho certeza daquilo que me conforma
daquilo que quero entender
e não acomodar com o que incomoda

E quando eu vou é quando eu acho que onde é que eu tô é pouco e tanto faz seja o que for, seja o que surge e some seja o que consome mais



quinta-feira, 19 de novembro de 2009


Desceu do ônibus escolar com uma idéia excelente. Foi devagar, procurando e coletando todas as joaninhas do caminho. As que encontrava guardava no vestido, florido, com cuidado para não apertar demais e sufocar as pobrezinhas. Chegou em casa com uma dúzia delas, ainda não era o bastante, mas já era o começo.
Correu em direção à varanda, onde o avô, concentrado, catava uma a uma as pulgas do vira-lata manchadinho. - Vô o que comem as joaninhas? Perguntou.
O velhinho, acostumado com as indagações, apertou os olhos para enxergar a pequena atravás do sol que refletia nos azulejos. - Insetos menores que ela, acredito.
Estava resolvido. Todos os dias repetia a mesma ação de recolher os bichinhos. Guardava-os no antigo aquário todo decorado com as pedrinhas que pegou dos vasos da mãe. Alimentava as joaninhas e ficava observando o número cada vez maior delas, até que povoaram por completo os espaços da caixa de vidro.
Uma tarde, com todo o cuidado, pegou o aquário, despediu-se dos pais e do avô e seguiu para a escola. Assim que chegou passou a procurá-la. Para a criança aquela era de longe a menina mais bonita do lugar. Sempre com seu batonzinho transparente na caixinha de morango. A coleguinha de classe para quem todos olhavam.
Encontrando-a com o olhar, caminhou até onde a garota estava e estendeu-lhe a casa das joaninhas. A menina que recebeu estranhou, olhou atravessado, pegou o aquário, agradeceu e saiu para brincar com outras crianças.
A menina que tratara os bichinhos ficou parada, imaginando o que poderia ter dado errado. Lembrou-se daquele dia. Enquanto desciam o escorregador do parquinho uma joaninha veio, voando de longe, pousou no colo da menina de batom. Os olhos da garota brilharam ao soltar um gritinho de satisfação.
'Teria dado certo se eu fosse a garota certa', pensou a menina, vestindo a mesma roupa florida.