
O céu era pesado. Parecia querer ir para algum lugar, mas estava lá, todo amontoado. Nuvem sobre nuvem, tudo muito cinza. Era verão, ainda assim os tempos pareciam outros. Ligou o chuveiro e sentiu frio, muito frio. A água escorria pela pele inteira arrepiada.
Apagou todos os e-mail da caixa de entrada sem ao menos ver quem eram os remetentes. Queria se livrar do que não existia. Queria que tudo desaparecesse sem deixar lembranças, sem causar arrependimentos.
Assistia às cenas. Sozinha na sala escura. Os olhos úmidos. Não queria companhia. O café tinha um cheiro bom, na xícara nova, preta, que ganhara de alguém que parecia tão especial. Parecia.
Caminhava descalça na grama e o frio voltava.
Ouvia aquela banda, há tempos esquecida e lembrava coisas que havia lutado pra enterrar. Estavam enterradas, mas nem por isso deixaram de existir. Morrer é impossível, pensou. Imaginou pessoas.
Quis cantarolar, mas nada parecia combinar com o momento. Quis recitar e lembrou-se que odiava poesia. Deve ser realmente incapaz de sentir. Coisas boas ou ruins. O princípio é o mesmo.
Conversou. E na verdade eram apenas respostas. Vazias. Não era sobre aquilo que queria falar, mas falou.
Escreveu e nada era como deveria ser. Nada impressionava, nada modificava. De nada valia.
Sabia onde estavam as pílulas. Tomou uma, duas e acreditou que não valia a pena. Não foi em frente. Teve medo. Apenas voou. Longe, muito longe. Por um momento houve liberdade.
Dormiu. Não sonhou. Acordou e o quarto continuava igual. A diferença era a luz. Um sol bastante distraído apareceu e entrava envergonhado pela fresta da janela. Não conseguiu espantar aquele ar gelado.
As fotografias na parede mantiveram os olhos intactos. Uma toalha jogada perto da porta etreaberta. O rádio tocava a mesma voz. Repetidamente.
I am so dumb
Just beam me up
I've had it all forever
I've had enough
Remember, you promised me
I'm dying, I'm dying, please
I want to, I need to be
Under your skin